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1975.14

Terreno Baldio 1o. LP - Pássaro Azul (ou Pirata)

A Chave - Ao Vivo em Londrina (1975) / Ensaios De Ponta Cabeça (1977)

 

Em 10 de Dezembro de 1975

Terreno Baldio, é uma banda paulistana de rock progressivo formada em 1973 por João Kurk, voz e percussão, Roberto Lazzarini, teclados, Joaquim Corrêa na bateria, João Ascenção, baixista que viria a deixar a banda em maio de 1976 dando lugar a Rodolfo Ayres Braga (ex Joelho de Porco); e, completando a formação, Mozart Mello como segundo vocal e guitarras.

Conhecido como o Gentle Giant brasileiro por conta da clara influência deste grupo em seu som, a banda entra nesse dia no estúdio da gravadora Pirata (nome que seria emprestado ao disco, que na verdade saiu apenas com o nome da banda na capa) e inicia as gravações de Pássaro Azul (outro nome emprestado, agora ao desenho da capa e à 1a. faixa), seu 1o. LP.

O disco seria lançado em junho de 1976 com apenas 3.000 cópias. As fitas-master do álbum desapareceriam nesta mesma época impedindo novas prensagens. O repertório é composto por uma música conceitual, enfatizando a liberdade e a natureza.

No final de 1976 o grupo receberia da crítica especializada, através de pesquisa do jornal Folha de São Paulo, o título de o melhor do ano, após ter se apresentado no festival Banana Progressiva. 


                                                  Ouça o LP completo no link ao lado: Terreno Baldio

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Em 18 de Dezembro de 1975, 

A Chave -  banda curitibana que começou a carreira em 1969, atravessando a década de 70 (até maio de 1979) com enorme sucesso, tornando-se um dos monstros sagrados do rock da época, como Secos & Molhados, Rita Lee & Tutti-Frutti, O Terço, Made in Brazil, Bixo da Seda, A Bolha e Som Nosso de Cada Dia, grupos ao lado dos quais A Chave sempre tocava.

                                                                  

Nesse dia o show que fizeram no Ginásio de Esportes Moringão, de Londrina (PR), foi gravado em uma fita cassete, direto da mesa de som, com uma qualidade técnica bastante razoável.

                                                                   

Esta gravação acaba tendo uma história super curiosa:

Postada em 2015 no You Tube por um desconhecido, no mesmo ano a gravação foi pirateada e lançada como CD com capa e encarte caprichados, o que acabou tendo total apoio dos próprios antigos membros d'A Chave, que viram a iniciativa como uma maneira de trazer ao público de hoje o trabalho que realizavam nos anos 70, visto que durante sua existência o grupo teve lançado (em 1977) apenas um compacto simples, com duas músicas.

O CD pirata levou o nome de A Chave Ao Vivo-1975 - Ginásio de Esportes Moringão - Londrina-PR

Na realidade, esse é o 2o. CD pirateado d'A Chave. 

                                                                  
                                                     Ouça o CD completo no link ao lado: A Chave Ao Vivo 1975 - Ginásio de Esportes Moringão

O 1o. CD pirata teve uma história ainda mais prosaica:

Em 16 de julho de 2004, os quatro integrantes da então já extinta banda (A Chave encerrou suas atividades em maio de 1979) foram pegos de surpresa com a descoberta de um CD pirata do grupo:

O vocalista Ivo Rodrigues ganhou de presente da loja de discos Vinyl Clube, de Curitiba, um CD pirata com as gravações de 10 músicas de um ensaio da banda para o show De Ponta Cabeça, realizado a partir de abril de 1975. Além dessas gravações, feitas em um gravador Akai de rolo, e mesa de mixagem Peavy, equipamentos de ponta da época, o CD pirata continha duas faixas bônus com as músicas do compacto que gravaram no estúdio de Eduardo Araújo, único disco oficial d'A Chave , lançado em 1977 pela GTA, gravadora da Rede Tupi de Televisão.

Eles, então, resolveram piratear o disco pirata, reproduindo-o em uma tiragem limitada que logo se esgotou.                    O mais curioso é a banda ter pirateado seu próprio disco pirata - sem conhecer o autor da pirataria, desconhecido também pelo pessoal da loja Vinyl Club que os presenteara.

                                                                  
                                                                            Ouça o CD completo no link ao lado: De Ponta Cabeça
                                                                           

Ivo Rodrigues e Paulo Teixeira

Em 1969 a cena rock de Curitiba era uma das mais fervilhantes dos sul do Brasil, alimentada, principalmente pelas rádios que produziam programas de auditório  como Ídolos da Juventude, apresentado por Dirceu Graeser na rádio Guairacá, e Expresso das Quintas, comandado por Mario Vendramel na PRB2.

Adolescentes entre 14 e 17 anos lotavam esses programas e não demorou para que surgissem os primeiros grupos locais, como The Little Devils, The Marvels (que depois se tornaria Metralhas), The Jets, os Vondas e Excelsior.

Foi em um desses programas de auditório, em 1969, que Ivo Rodrigues Jr., gaúcho de Porto Alegre (28-02-1949 / 08/04/2010), que viera para Curitiba aos 3 anos, no início dos anos 50; reencontrou o guitarrista Paulo Teixeira.

Ambos haviam se conhecido em 1966, quando participaram de um concurso chamado Troféu Barra Limpa, programa apresentado por Júlio Rosemberg na TV Paranaense, que classificaria o melhor cantor e o melhor conjunto do sul do Brasil, categorias vencidas por, respectivamente, Ivo Rodrigues e The Jetsons, banda originária de Palmeira (PR), na qual Paulo Teixeira era guitarrista.

Como prêmio Ivo ganhou um programa de duas horas, transmitido nas tardes de sábado, na TV Paranaense, chamado Juventude Alegria

                                                                                      Ivo Rodrigues apresentando o Programa Juventude Alegria - 1969
                                                                                                                                Os Jetsons - 1969
                                                                  Paulo Teixeira

Carlão Gaertner e Orlando Azevedo

Nascido em Curitiba, Carlão (Carlos A.) Gaertner, que viria a ser o baixista d’A Chave, passou uma época morando em Porto Alegre. Voltando para a cidade natal em novembro de 1968, poucos meses depois ele (no aniversário de uma prima) conheceria Ivo Rodrigues, que na época era vocalista do grupo Primatas. Rapidamente os dois tornaram-se amigos inseparáveis.

 1969 - Rara foto do grupo Primatas - Da esquerda para a direita:
Ivo Rodrigues (voz), Rodney Luiz de França (guitarra), Carlão Gaertner (baixo), Chumbinho (guitarra) e Ely (bateria) 
                     

Em novembro de 1969, Carlão Gaertner conheceu o português Orlando Azevedo (futuro baterista d’A Chave) e, através dele aproximou-se dos Jetsons, em que Orlando era diretor artístico e baterista (a partir do réveillon de 1969). Nesse início Carlão passa a atuar como iluminador e técnico de som.

                                                                                                                                       Carlão Gaertner
                                                                                                                  Orlando Azevedo

Pouco depois, através uma votação interna, o nome do grupo seria alterado para A Chave

Na época eram um quinteto formado por Orlando Azevedo (bateria), Paulo Teixeira (guitarra), Zito Bacilla (baixo), Toninho Bacilla (vocais) e Eli Alves (teclados). Carlão só assumiria o baixo em 1973, com a saída de Zito.

                                                                                                 A Chave - 1969

É em 1970 que Ivo Rodrigues assumiria os vocais d’A ChaveAinda apresentador do programa de TV Juventude Alegria e vocalista dos Primatas, Ivo foi convidado para substituir Toninho Bacilla, que sofrera um sério acidente automobilístico, sendo a partir daí pressionado pelos pais a sair do grupo.


                                                                                 A Chave com Ivo Rodrigues - 1970
                                                                 

É, então, com a formação Orlando Azevedo (bateria), Paulo Teixeira (guitarra), Zito Bacilla (baixo), Eli Alves (teclados) e Ivo Rodrigues, que em 1971 o grupo alugou uma casa (na rua Padre Anchieta, Bairro das Mercês), a qual, depois de pintarem-na de branco do telhado ao piso, batizaram de Casa Branca.

Lá passaram a morar e montaram um estúdio para ensaios e um centro de produções e polo de criação artística chamado Laboratório de Comunicação e Interação A Chave.

                                                                                                             A Casa Branca
                                                                                                                                   Estúdio da Casa Branca    
                                                                      A Chave no estúdio da Casa Branca
                                                               Ivo Rodrigues no estúdio da Casa Branca
                                                                  

É nessa época, na Casa Branca, que o poeta e agitador cultural Paulo Leminski se aproximaria da banda, passando a ser uma espécie de guru, além de compositor de algumas das letras mais inspiradas do grupo.

                 Da esq. p/ a direita: Paulo Leminski, Ivo Rodrigues, Orlando Azevedo e Carlão Gaetner

De 1971 a 1973, Carlão Gaertner trabalhou com A Chave como técnico de som e iluminador em suas apresentações e participava ativamente da vida e dos rumos da banda, junto com Orlando. Em 1973, quando o baixista Zito Bacilla resolveu sair do grupo, Carlão assumiu seu lugar no baixo e mantiveram a formação de quinteto até meados de 1974, quando o tecladista Eli Alves também saiu da banda.

                                                                  

Nos dias 21 e 22 de dezembro de 1973, A Chave abriu para o Secos & Molhados, no auge de seu sucesso, o primeiro show de rock que aconteceu no Palácio de Cristal (ginásio de esportes) do Círculo Militar do Paraná, diante de um público de mais de 5.000 pessoas.

A produção local e a divulgação do evento, que recebeu o nome de X Horas de Rockforam realizadas pel'A Chave.

                                                                

Nessa época o grupo interrompeu suas atividades por cerca de 6 meses, período passado em busca de patrocínio para a compra de uma aparelhagem de som e luz mais condizente com o grau de profissionalismo que já então haviam adquirido.

É em meados de 1974, já com sua clássica formação de quarteto - Ivo Rodrigues (vocais e guitarra base), Paulo Teixeira (guitarra solo), Carlão Gaertner (baixo) e Orlando Azevedo (bateria e direção artística e conceitual) - que a banda passa a ser cultuada como uma das maiores lendas do rock setentista, não só do sul do país, mas de todo o Brasil.

Em 25 de maio de 1974 Rita Lee estava lançando seu primeiro disco solo, Atrás do Porto tem uma Cidade; Carlão Gaertner, que já era amigo dela e dos Mutantes desde 1969, logo tratou de trazer a amiga para quatro shows em Curitiba, dois no Clube Curitibano, e dois no Palácio de Cristal.

No final de 1974 (após uma pausa de 6 meses – em 1973 - na atividade do grupo), conseguindo patrocínio de uma construtora, a banda adquire um dos mais sofisticados equipamentos de som que um grupo de rock brasileiro poderia conseguir.

Ao longo de três anos e meio na Casa Branca – deixaram o local na metade de 1974 – A Chave começou a abrir todas as portas na cena rock de Curitiba. Promoveram o I Recital Pop no Auditório Salvador de Ferrante (Guairinha) da Fundação Teatro Guaíra, que foi o primeiro show de rock de uma banda local em teatro. Inauguraram o Palco Flutuante do Passeio Público, parque central da cidade, com um show de rock ao ar livre. 

No final de abril de 1975, A Chave fez um de seus maiores shows até então, o histórico De Ponta Cabeça, um dos ícones da história do rock brasileiro dos anos 70, de cujo ensaio saíram as gravações para o CD pirata citado no início deste post.

                                                                 
                                                              
                                                                

Paralelamente, ainda abriu o show dos Mutantes da turnê do álbum Tudo Foi Feito Pelo Sol, no ginásio de esportes da Sociedade Thalia, em Curitiba; abriu também o show d’O Terço da turnê do álbum Criaturas da Noite, no Estádio Couto Pereira do Coritiba Futebol Clube, no auge do sucesso da música Hey Amigo.

Em 16 de Outubro de 1975 o grupo teve um dos seus maiores momentos, abrindo o show de ninguém menos que Bill Haley & His Comets, no Teatro Guaíra.

                                                                  
                                                           

Nos dias 12 e 13 de junho de 1976, pela primeira vez no sul, o Made in Brazil ao lado d’A Chave, mostrou para a garotada que lotou o Palácio de Cristal, como é que se faz rock’n roll, resultando em zumbidos nos ouvidos devido aos 4,000 Watts de potência sonora.

                                                                

Em Julho de 1976, a revista POP (Ed. Abril) noticiou que A Chave estava iniciando as gravações de seu primeiro LP. Porém, por diversas dificuldades não superadas, as gravações foram interrompidas e o disco teve seu lançamento suspenso definitivamente.

                                                                 

Em 24 de agosto de 1976, grávida de três meses, Rita Lee foi presa em flagrante depois de os policiais supostamente terem encontrado pequenas quantias de maconha em sua residência. Mas neam a condenação fez com que ela deixasse de fazer shows. 

Em outubro de 1976chamado pelos integrantes d'A Chave, o show Entradas e Bandeiras, que levava o nome do mais recente disco de Rita com o Tutti-Frutti, levou 10 mil pessoas à loucura em dois dias de apresentação no Palácio de Cristal, de Curitiba.

Foram os curitibanos d'A Chave os responsáveis por aquecer a platéia antes de Rita Lee subir ao palco vestida de presidiária com sua barriga de grávida, fazendo daquela apresentação uma grande gozação musical no meio de tanta turbulência. 

                                                                 
                                                               
                                                                  

Ao participar de um dos mais importantes festivais de rock da época, o Camburock (janeiro de 1977), em Balneário Camboriú (SC) encontraram-se com Eduardo Araújo que, após assistir a apresentação d’A Chave, foi falar com eles e perguntou se a banda já tinha gravado. Disseram que não e então ele ofereceu graciosamente seu Estúdio Templo, em São Paulo, para A Chave gravar duas músicas em um compacto simples, que ele mesmo produziria e editaria.

                                                                                                                                       Diário do Paraná - anúncio do Camburock
                                                  Orlando Azevedo na bateria e Carlão Gaertner no baixo - show no Camburock
     
                                                                                 Eduardo Araújo

Aceitaram no ato e em abril de 1977 foram para São Paulo gravar as duas músicas, com a participação especial de Manito no sax e piano, que tinha aceitado o convite do grupo e do próprio Eduardo Araújo durante o Camburock, onde Manito também tocara com o Som Nosso de Cada Dia.

Da esquerda p/ a direita: Manito, Carlão Gaetner, Orlando Azevedo, Ivo Rodrigues e Paulo Teixeira 

Em novembro daquele ano, fizeram o show de lançamento do compacto pelo selo GTA -  Gravações Tupi Associadas (da Rede Tupi de Televisão), com as músicas Buraco no Coração e Me Provoque Pra Ver, com letras de Paulo Leminski; no Palácio de Cristal do Círculo Militar do Paraná.

Manito, recém saído do Som Nosso de Cada Dia, foi à Curitiba para se apresentar junto com A Chave no referido show. Momento inesquecível. 

                                                                                                              Ouça no link ao lado: Buraco no coração
                                                                                           Ouça no link ao lado: Me provoque prá ver

Ainda em 77, aconteceu O Maior Show de Rock do Ano, com a presença d’A Chave, Casa das Máquinas,  Joelho de Porco e Blindagem.

                                                                  

A partir de 1978, por influência de Paulo Leminski, Ivo Rodrigues passou a direcionar as composições para um tipo de música que fugia da sonoridade pesada do grupo, o que acabou gerando vários conflitos.

Quando a banda acabou, apesar de ter mais de 100 músicas próprias – uma boa parte tendo como letrista o conhecido poeta Paulo Leminski – não deixou nenhum registro em LP.

Socorro! Socorro! - o show de encerramento d’A Chave aconteceu em 08 de outubro de 1978, numa temporada de cinco dias no TUC – Teatro Universitário de Curitiba.

                                                                   
                                                                  

Apenas alguns meses depois, em maio de 1979, A Chave se dissolveu.

Nessa época Ivo já estava envolvido com aquela que seria sua futura banda: Blindagem, com a qual já havia cantado (estando ainda n'A Chave) em novembro de 1977.

                                                                  

Paulo Teixeira o seguiria nessa mudança. Mas, essa já é outra história...

Em 2015 seria lançado Todo Rockeiro é Gente Fina, vídeo documentando toda a trajetória d'A Chave.

                                Assista ao vídeo completo no link ao lado: Todo Rockeiro é Gente Fina   

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